O palco está iluminado. Luz fria de ensaio, mas os cenários impassíveis continuam lá.
A escada continua lá, na entrada do teatro – alguém consertou uma das luminárias na entrada – lá onde os espectadores, antes de qualquer coisa, desfilam seus figurinos.Tudo vazio.
Não há ninguém na passarela de entrada, não há ninguém na platéia. Apenas a luz fria de ensaio ilumina o palco.
Sento-me na penúltima fila de cadeiras, exatamente na segunda cadeira, como sempre faço, quando chego adiantado para os ensaios. A sensação de palco vazio de gente, com apenas o cenário, aguça minhas lembranças e me deixo ficar.
Não há ninguém na passarela de entrada, não há ninguém na platéia. Apenas a luz fria de ensaio ilumina o palco.
Sento-me na penúltima fila de cadeiras, exatamente na segunda cadeira, como sempre faço, quando chego adiantado para os ensaios. A sensação de palco vazio de gente, com apenas o cenário, aguça minhas lembranças e me deixo ficar.
" Imagens vêem à minha mente. Vejo pessoas paramentadas, personagens caminhando, buscando seu momento de celebração, o palco cada vez mais cheio, é um turbilhão de personagens e espetáculos acontecendo simultaneamente, no mesmo lugar, cenários e personagens se interpenetrando, mas todos ali, ao mesmo tempo, quase ao vivo, diante da platéia boquiaberta..."
Agora vejo a platéia. Luz sobre mim, estou no palco. Observo os espectadores. Parecem todos conhecidos, publico de todos os espetáculos. Os olhos grudados em mim, observando cada gesto, cada palavra, cada passo. Então, vejo-me lá, sentado na segunda cadeira, da penúltima fila.
Sou o espectador de todos esses dramas.
O palco esta agora todo vazio. Já não há cenários, personagens, textos, figurinos, platéia, nada.
Jogado num canto do palco, quase na coxa, um par de sapatos vermelhos, salto12. Está ali, como que esquecido, esperando o próximo espetáculo, e a bela dançarina que o usou.
A dançarina não apareceu, e os espectadores não viram o espetáculo. e eu sou o único espectador.
O palco vazio, nem luz acesa têm mais. Somente jogado num canto, o par de sapatos feminino, salto 12, vermelho.
Da segunda cadeira, da penúltima fila, revejo assim mesmo os passos da bela dançarina, dona dos sapatos.
O teatro em polvorosa, frenético ao vê-la, sapateando sobre todos, altiva e exuberante, o vestido vermelho derramando-se aos meneios da dança, por todo o corpo. A flor vermelha escancarada sobre os cabelos loiros,dá um toque de sedução e luxuria ao mesmo tempo. A música embriagadora levando a platéia aos aplausos e frenesi. Flores voam da platéia para o proscênio."
Arrebatado para fora de mim, corro apressado, flores nas mãos, vou ao camarim, o coração a bater diferente.
Aquela mulher, com curvas a delinear o corpo que dançava, provavelmente estava nua.
Junto a porta, páro. Uma estrela dourada sobrepõe o nome ali impresso, daquela que despedaçou a platéia com sua beleza, leveza, magia... não bati na porta, estanquei ali, pétreo, pálido, gelado. Balbucio algumas desculpas pra mim mesmo, e fico a olhar o painel, cheio de fotos, ao lado da entrada do camarim.
Então vi, para assombro maior, o seu corpo. Suas formas, sua bunda , seus peitos, bem de perto, um tecido vermelho talvez seda, ornando-o lateralmente, sua boca, lábios carmim, tudo novamente se misturando ante o desejo desafiador.
Estou na segunda cadeira da penúltima...
E o palco, está iluminado com a luz fria de ensaio...
(Recebi de um amigo,diga-se ,ímpar,artista plástico,romântico,inteligente...)
